A evolução do Coffee Brewing Control Chart: do modelo simplificado à complexidade sensorial

Veja neste conteúdo a reestruturação do Coffee Brewing Control Chart, com atualizações relacionadas com atributos percebidos e preferência dos consumidores.

A evolução do Coffee Brewing Control Chart: do modelo simplificado à complexidade sensorial

O Coffee Brewing Control Chart clássico, desenvolvido a partir do trabalho de Lockhart em 1957, estabeleceu uma relação direta entre qualidade da bebida, força (TDS) e rendimento de extração.

Coffee brewing control chart de 1957
Coffee Brewing Control Chart (1957): O modelo clássico relaciona TDS e rendimento de extração para definir zonas como “subextraído”, “ideal” e “superextraído”. Apesar de ser amplamente utilizado, ele simplifica excessivamente a experiência do café ao reduzir qualidade a poucos atributos e assumir um único ponto ótimo universal.

Esse modelo foi essencial para estruturar o entendimento técnico do preparo e permanece amplamente utilizado até hoje, além de ser a bússola em muitos materiais da SCA (Specialty Coffee Association).

No entanto, o próprio artigo de Guinard et al. (2023) demonstra que essa representação é insuficiente para descrever o comportamento real do café na xícara.

A principal limitação está no fato de que o modelo clássico assume uma relação simplificada entre variáveis físico-químicas e qualidade sensorial, ignorando a complexidade dos atributos percebidos e das preferências dos consumidores. Dessa forma, uma reestruturação desse gráfico se faz necessária.

O problema central: o gráfico clássico não representa o que sentimos

O gráfico original trabalha com poucos descritores sensoriais, como “bitter” (amargo), “under-developed” (sub extraído) e “ideal”, além de misturar conceitos distintos como descrição sensorial, qualidade e preferência do consumidor em uma mesma estrutura.

Isso gera uma simplificação excessiva. O café possui centenas de atributos sensoriais possíveis, incluindo notas desejáveis como chocolate, caramelo, frutas, floral e até especiarias, além de defeitos.

Portanto, reduzir toda essa complexidade a três zonas operacionais não reflete a realidade da experiência sensorial.

Acrescento, simplificar em grandes zonas genéricas menospreza a capacidade de percepção sensorial do consumidor e, ainda mais, do barista que desempenhou seu papel com afinco.

A nova proposta: integrar ciência sensorial e comportamento do consumidor

O avanço apresentado no artigo está na construção de um novo conjunto de gráficos que incorporam dados experimentais robustos, combinando: análise sensorial descritiva com dezenas de atributos; medições físico-químicas controladas de TDS e extração; testes de aceitação com consumidores reais.

Essa abordagem resultou em quatro versões complementares do chart:

  1. Sensory BCC: mapeia onde cada atributo sensorial é mais intenso (Figura 2);
  2. Consumer BCC: mostra como diferentes perfis de consumidores respondem às extrações (Figura 3);
  3. Sensory and Consumer BCC: integra percepção sensorial e preferência (Figura 4);
  4. Streamlined BCC: versão simplificada para aplicação prática (Figura 5).

O ponto central é que o gráfico deixa de ser apenas um guia técnico e passa a ser uma ferramenta de design sensorial.

Sensory Brewing Control Chart
Sensory Brewing Control Chart: A nova proposta mapeia atributos sensoriais reais ao longo do gráfico. Regiões diferentes passam a representar perfis como acidez, cítrico, frutado, amargor, adstringência e notas torradas, evidenciando que a extração define o perfil sensorial e não apenas a “qualidade”.
Consumer Brewing Control Chart
Consumer Brewing Control Chart: A análise de consumidores revela dois clusters distintos de preferência. Não existe um único café ideal: diferentes perfis de extração atendem públicos diferentes, com padrões de aceitação distribuídos ao longo do gráfico.
Sensory + Consumer Brewing Control Chart
Sensory + Consumer Brewing Control Chart: Integra percepção sensorial e comportamento do consumidor no mesmo modelo. Permite correlacionar regiões do gráfico com atributos sensoriais e níveis de aceitação, transformando o preparo em uma ferramenta estratégica de direcionamento de experiência.
Streamlined Brewing Control Chart
Streamlined Brewing Control Chart: Versão simplificada para aplicação prática. Mantém os principais atributos sensoriais e reposiciona a zona clássica como “referência histórica”, não mais como padrão ideal, facilitando a transição do modelo tradicional para o novo paradigma.

Como o novo chart funciona na prática

No novo Sensory BCC, cada região do gráfico não representa “certo” ou “errado”, mas sim a predominância de atributos específicos.

Por exemplo: regiões com alta força e baixa extração tendem a enfatizar acidez, notas cítricas e frutadas. Já regiões com alta força e alta extração tendem a destacar amargor, adstringência e notas torradas.

Logo, o gráfico passa a ser interpretado como um mapa de expressão sensorial. Além disso, a intensidade dos atributos é representada visualmente, indicando não apenas presença, mas relevância sensorial dentro daquele contexto.

A quebra do mito do “café ideal”

Um dos achados mais relevantes do estudo é a identificação de dois clusters distintos de preferência entre consumidores.

  1. Um grupo prefere cafés com menor intensidade, menor amargor e maior percepção de suavidade
  2. Outro grupo valoriza perfis mais extremos, incluindo tanto cafés mais ácidos e frutados quanto cafés mais intensos, amargos e encorpados

Isso invalida diretamente a ideia de um único ponto ótimo universal. O que o gráfico clássico chama de “ideal” é, na prática, apenas uma média estatística que mascara preferências distintas.

Implicações para o preparo do café

A principal contribuição do novo modelo está na mudança de lógica operacional. O preparo deixa de ser orientado por correção e passa a ser orientado por intenção.

Em vez de ajustar variáveis para entrar em uma zona fixa, o preparo passa a manipular TDS, extração e proporção com o objetivo de atingir um perfil sensorial específico ou atender a um determinado público.

Isso reposiciona a extração como um processo de engenharia sensorial.Não puramente como uma ciência exata.

Conclusão

O novo Coffee Brewing Control Chart não apenas atualiza o modelo clássico, mas redefine sua função.

O modelo original foi fundamental para padronização. O modelo atual é orientado para personalização.

Ao integrar dados sensoriais e comportamento do consumidor, o café deixa de ser interpretado como um sistema binário e passa a ser compreendido como um espaço contínuo de possibilidades sensoriais.

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Referências

Lockhart, E. E. (1957). The soluble solids in beverage coffee as an index to cup quality. Coffee Brewing Institute.

Guinard, J.-X., Frost, S., Batali, M., Cotter, A., Lim, L. X., & Ristenpart, W. D. (2023). A new Coffee Brewing Control Chart relating sensory properties and consumer liking to brew strength, extraction yield, and brew ratio. Journal of Food Science, 88, 2168–2177.